Entre arte e direito autoral: a trilha sonora original pode definir o futuro de um curta-metragem

Curta A Última Fita aposta em trilha sonora autoral e levanta debate sobre identidade artística, direitos autorais e os riscos jurídicos do uso de músicas mainstream no audiovisual independente

 

No cinema independente, especialmente no curta-metragem, a trilha sonora ainda é tratada por muitos realizadores como um detalhe secundário ou um espaço sem regras claras. O resultado é um erro recorrente: o uso de músicas de artistas consagrados sem autorização, prática que configura infração de direitos autorais e pode impedir a exibição de um filme em festivais nacionais e internacionais. O curta A Última Fita propõe o caminho oposto: uma trilha sonora totalmente autoral, pensada como parte da narrativa e assinada por um compositor especializado em audiovisual, Daniel Sullivan, defendendo a ideia de que trilha original não é luxo em curta-metragem ou, ao menos, não deveria ser.

No circuito de curtas, é comum encontrar produções que recorrem a músicas de bandas consagradas ou artistas populares sem licenciamento adequado, muitas vezes acreditando que o crédito ao artista original seja suficiente para legitimar o uso. Na prática, essa escolha pode inviabilizar a circulação do filme. “Usar a música de outro artista sem autorização configura plágio e pode gerar processos judiciais. Muitos realizadores simplesmente não percebem isso, pensam somente em como uma música mainstream encaixa na cena deles”, afirma Caroline Adrielli, roteirista, diretora e produtora de A Última Fita.

Segundo a realizadora, existem alternativas acessíveis para quem não dispõe de orçamento elevado. “A saída para quem não quer usar a música de outro artista sem autorização é recorrer a bancos de som gratuitos. Isso resolve a questão jurídica, claro. Mas o produtor acaba caindo na mesmice: usa um som que outras mil produções também podem usar”, explica. “Isso não tira o mérito da obra, mas deixa o filme sem personalidade”, explica a produtora.

Composição original brasileira

A trilha de A Última Fita é assinada por Daniel Sullivan, compositor com 14 anos de experiência musical. Sua trajetória começou como baterista em bandas de rock e metal, passa pelo aprofundamento na música clássica, que o consolida como pianista, e evolui para a composição de trilhas cinemáticas. Hoje, Daniel atua na criação de música original para filmes, jogos e produções audiovisuais que demandam um som personalizado e profissional. Após trabalhos em projetos de drama, A Última Fita marca sua estreia na composição de trilha para o gênero terror.

“Muitas vezes, para compor uma trilha sonora para um curta ou longa, o grande desafio é o prazo muito apertado. Realizadores audiovisuais deixam para pensar na trilha somente na pós-produção, quando o ideal é que o compositor tenha contato com o projeto já na pré-produção. Geralmente, compositores de cinema são também produtores, portanto, o processo vai muito além de apenas compor uma trilha. É preciso que tudo esteja alinhado ao roteiro e aos desejos do diretor”, explica Daniel Sullivan sobre o processo criativo.

Segundo o compositor, a trilha sonora original no cinema ainda carece de reconhecimento à altura de sua importância narrativa. “O som também é responsável por conduzir a emoção de uma cena. Ele se combina à imagem para criar sentido, ritmo e atmosfera. Sem uma composição pensada para a história, o filme perde força. É a música que guia o espectador para a imersão daquele momento”, afirma Daniel Sullivan.

Legenda: Daniel Sullivan, compositor brasileiro especializado em trilha sonora para filmes. (Foto: Arquivo pessoal)

No curta, essa lógica se materializa na criação de uma música-tema para o assassino, inspirada no conceito de leitmotiv consagrado por clássicos do gênero, como Halloween, de John Carpenter. A referência, no entanto, não significa cópia. “A ideia não é reproduzir o que já existe, mas entender por que funciona. Criar um tema próprio dá identidade ao filme e faz o espectador reconhecer aquele personagem pelo som”, afirma o compositor.

Além da dimensão artística, a trilha original também é uma escolha estratégica e jurídica. “O curta-metragem costuma ser tratado como um formato menor, mas isso não significa que ele exija menos rigor do que um longa. Uma trilha sonora original e bem executada é o que dá autenticidade ao filme. Além de evitar a violação de direitos autorais de outros artistas, algo ainda mais sensível em um cenário em que muitos recorrem à inteligência artificial, a originalidade protege o projeto e garante que ele possa circular, concorrer e ser levado a sério em festivais. O plágio não pode ser o motivo pelo qual um filme deixa de existir”, afirma Daniel Sullivan.

Ao apostar em composição autoral desde o roteiro, A Última Fita se posiciona como um projeto que trata o curta-metragem com o mesmo rigor criativo e profissional de uma produção de maior escala. “Quando você pensa em som, imagem e narrativa juntos, o filme ganha identidade. E identidade é o que faz um curta sobreviver, circular e ser lembrado”, conclui a diretora.

 

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